Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias
Paulinho Quirino poderia ter acontecido, nesta longa estrada da vida, como diplomata. Nasceu brasileiro, no auge da ditadura militar, mas se encantou mesmo foi com a Copa de 70. Promoveu um acordo de paz entre seu Agenor e dona Maria das Neves, seus respectivos pai e mãe, que arquitetavam um divórcio, às escondidas dos familiares e chegados, após quinze anos de (des)ajustamento. Foi eleito, e reeleito por unanimidade em assembléia geral, diretor do grêmio estudantil nos três anos do ensino médio, na escola pública que estudou. Apartou brigas de amigos e de cães e gatos. Lutou em prol da implantação de um postinho de saúde no bairro. Só faltou vender a cueca para pagar suas dívidas que o acompanham desde pivete.
Ele também poderia ter se consagrado como o maior jogador do Miranda F.C. e como futura promessa para o futebol canarinho. Desde cedo se agraciou com a bola de capotão, dada pelo seu tio Norberto, e por uma camisa do Santos; em 1982 marcou dezoito gols na várzea pelo campeonato regional; no ano seguinte pendurou as chuteiras por culpa de uma morena, a ex-namoradinha do Xandão, goleiro reserva do time; quatro anos depois quis retornar aos gramados, mas sua fase já não era tão boa quanto antes.
Ele até que poderia ter se revelado um ator de novela mexicana, feito Carrossel, Rebeldes, ou quiçá, do glorioso seriado Chaves. Foi o mais carismático vendedor de seguros funerários que já encontrei, depois advogado dos bons, até se auto-nomear político do povo, concorrendo como vereador de sua terra natal. Perdeu prestígio, devido às intrigas da oposição, porém, ganhou dinheiro na conta. Dizem as más línguas que em meio a essa balbúrdia toda comprou uma casa com piscina no bairro das Alamedas, de classe média alta, e uma moto Kawasaki de dar inveja em playboy. Seu charme e galanteio arrematou de uma vez por todas sua atual esposa, Laurinda, filha do Doricão, o mais bem sucedido fazendeiro dessas bandas.
Se tivesse tomado fé e juízo, poderia ter sido, inclusive, um missionário. Se converteu aos 13 de idade, e aos 10 de maturidade, na Igreja Evangélica da Alta Esplanada, quando levado à força por seu tio Ismael. Com o passar do tempo se tornou rato de acampamento. Dois anos depois se aventurou no louvor, no teatro, no grupo de expressão corporal, na reunião das senhoras, como visitante de asilo e garçom de ceia. Até que um dia, na juventude - “me voltei a Deus em um culto de Páscoa. Minhas lágrimas escorriam e meu coração ardeu como nunca” - relatou para mim, com convicção e de Bíblia na mão. Depois disso, anunciava que queria mesmo é ser missionário, daqueles que salvam almas e mudam o mundo pra Jesus. A paixão foi forte. Estudou inglês e francês. Fez um curso bíblico de um ano e meio. Atuou em mobilizações nas igrejas da cidade e se arriscou perigosamente em turismos missionários – interiorzão da Bahia, Santarém, Guaxupé, safari africano e States. Apesar de tudo, confesso que ele nunca conseguiu se desapegar de seu estilo e padrão de vida. Sabe como é, né?
Fique sabendo, meu querido leitor, que os anos passam rápidos e sem dar avisos. A gente come, cresce e engorda, cria barriga e uma conta bancária. A gente chora e dá trabalho aos pais (e aos vizinhos) quando pequeno, libera os hormônios e as espinhas na adolescência, e na maioridade é a vez de levantar o diploma e se seduzir com as chaves do carro. Na próxima fase você pode optar entre casar, amontoar ou liberar geral – ao gosto do cliente. Por fim, os estalos, os calos e a aposentadoria irrisória. Hoje meu avô, senhor Quirino, passou o dia sentado no banco da praça, jogando dominó e bebendo suco de amendoim. Atenciosamente me olhou, por detrás de suas lentes grossas e empoeiradas, e me sugeriu inquietamente, com sua voz grave, e ao mesmo tempo singela, que sem dúvida é melhor eu buscar sincera e desconfortavelmente a Deus do que me aventurar como um louco por tão pouco.
